quarta-feira, 24 de março de 2010

Rabo de Sereia

Mais uma vez acabo de chegar em casa de mais uma viagem.

Eu e meu longboard estivemos surfando pelas ondas catarinas. Passei pelo Rosa, por Floripa. Amei pela 5ª vez. Como se não bastace, foi na Guardado em Baú onde de fato se resumiu toda a minha trip.

O diferencial da Guarda era o medo que me dava surfar lá. Era um medo que eu vencia de verdade todos os dias. E imaginar que em pouco tempo, aqui aconchegada na minha casinha, eu já sinto saudade dos meus medos, dos mares que entrei com o olho arregalado e dava tudo de mim pra surfar as maiores, mesmo com as perninhas bambas. Surfar uma onda daquelas me levou a um estado meditativo, nunca sentido antes. Silêncio.

Todos os meus dias foram muito especiais. Um destaque aos dias que passei com a menina Catarina, uma guria de 7 anos. Foi uma verdadeira junção de meus canais energéticos e meu coração abertos pro mundo e de muita energia boa e intensa vinda de uma criança na flor da idade. Monstrinho. Foram dias que de mim só podia se esperar risadas, gargalhadas.

Catarina era uma ótima companheira, apesar de ser muito chata. No almoço, ela própria se encarregava de lavar com esmero todos os legumes. E na hora da cenoura, que estava quase podre, confesso. "Olha! Tá mole!", escuto. Preparei então meus ouvidos para ouvir seguinte palavras obscenas... "Parece um rabo de sereia!". Ufa!! A juventude não está perdida, pensei. Mas ouvir isso não tem preço. Me fez muito bem a presença dela. Imagina então quando eu tiver os meus [filhos].

Minha última noite lá foi um grande presente. Fui dar uma banda no mato e largar um pouco a balada que tocava o mesmo repertório todos os dias. Inexplicável. Depois de pular uma porteira e andar por um matagal de um terreno abandonado, encontrei a paz. Cheguei no topo de uma duna, lá em baixo o rio, e depois mais dunas na outra margem, e depois o mar. Lá em cima, estrelas.

Fiquei durante horas sentadinha pensando quando eu teria essa paz de novo. Enquanto isso, pulavam uns robalos da água. Não muito distante, percebi que já sentira aquela paz antes! Lembrei do telhado aqui de casa, daquela estrelinha vermelha que só brilha lá. E percebi que essa paz de espírito eu carrego aqui no coração aonde eu for.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Deleite de Reis


Agora está na moda, pelo menos aqui no Rio, esses fast foods por todas as esquinas da zona sul. Eu não sou favorável a essa ideologia fast. Pretendo até, num dado período da minha faculdade de arquitetura, projetar um jardim suspenso no telhado do meu prédio e lá sim plantaria minhas coisas. De certa forma, estamos todos cercados pelo capitalismo e confesso que usufruo da praticidade desses fast por ai.
Hoje mesmo fui num fast food arabe, frequentado pela burguesia proletariada do delta leblon, e pedi um falafel. Cara, não é qualquer falafel que faz isso comigo, mas esse de hoje, só ele, me trouxe uma sinestesia absurda, uma nostalgia que me pôs a chegar em casa e escrever aqui.
O fato é que lembrei de um episódio ocorrido na Bahia, há um ano atrás. Fui passar uma temporada em Itacaré. Era final de janeiro e toda a galera que estava comigo naquela trip já tinha partido. Alguns eu reencontraria adiante, em outro lugar. A maioria ou quis voltar pro rio, ou quis ir para o festival de verão em Salvador. Eu quis ficar, e delirava em continuar minha viagem a cavalo.
De qualquer forma fiquei sozinha lá, quer dizer, eu e Leandro, um companero que morava lá mesmo. Era uma figura ele, um garotão negão altão, surfava como ninguém e ficava despretencioso pela rua jogando claves. As veses ele ia vender docinhos comigo na rua. Pra mim, foi o meio que encontrei de ganhar dinheiro, continuar a viagem. Era todo dia comprando o mais barato do mercado para, em ritmo progressivo, me manter peregrinando.
Nos meus últimos suspiros em Itacaré, eu e Leandro bombamos nas nossas vendas. Foi a tarde de deleite estravagante.Pegamos todo o nosso dinheiro e fomos num restaurante Israelense . Tinha até um dicionário Michaelis Português-Israelense. A mesa parecia até que estava reservada para um sultão. Várias almofadas no chão, vários panos pendurados em volta, a madeira bonita de jacarandá. Pedimos vaaaárias coisas no cardápio. Só fartura. Faltava era uma dançarina do ventre!
Imaginar que no dia seguinte fui para uma comunidade na Barra Grande, e não foi a cavalo. Apesar da energia e luz distar uns 7 km, lá a fartura era nas ondas de dia sobre o fundo de coral, e de noite sob o céu, onde vi com meus próprios olhos pela primeira vez um satélite artificial atravessando as estrelas.

Viva o dia de reis, viva o haxixe, viva as frutas secas, viva o incenso!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cândido Portinari e a Vaca Rosa


Lendo todas as TRIPs aqui da casa da minha tia nesses últimos dias, vejo que não só meninas lindas preenchem de graça e delicadeza as suas páginas. TRIP também é cultura. É verdade. Me deparei com uma breve nota entitulada "Delicadeza corporal" falando sobre as obras de um excêntrico artista japa, Tetsuo Ikeda.
A imagem entitulada "2001" de fato me deixou curiosa, levando-me até seus arquivos onde encontrei a vaca, a tal da vaca azul.

Sem dúvida, não foi a primeira vez que me ocorre essa imagem. Sim, essa vaca já me aparecera - cor de rosa, porém. Eu ainda morava em Brasília e estudava no Candanguinho. Nessa escola, eu tinha aula de artes. Um dia, a professora começou a aula na teoria, falando só sobre Cândido Portinari ao passo que nos apresentava algumas das obras. E lá pelo desenrolar da aula, ouvi que esse pintor introduziu na arte brasileira uma certa flexibilidade das cores. Foi ai que a professora nos passou que o fato de uma vaca ser marrom ou malhada não necessariamente nos limita a desenhá-la assim como ela é. E com o restante da aula, eu e meus colegas ficamos instigados a desenhar vacas nos nossos papéis e colorir das mais diversas cores. Cara, não digo que essa foi a minha melhor aula de artes. Mas sem dúvidas, quando vejo uma vaca no meu caminho, ou melhor, quando me meto no caminho de uma vaca, não consigo vê-la de outra cor que não esteja no meu estojo de lápis.